segunda-feira, 29 de outubro de 2012

treze poemas de Jane Fiuza Virmond

                                  

______________________________beijo na boca

de tão feliz não querer dormir
euforia adolescente
acerca de mim, voo que sublima
beijo na boca sem língua

afeto que não mingua
lua cheia semi nua
afeto que não finda
beijos na boca sem língua .

São Paulo, 2011.



____________________olhos negros no talude

a vida se esparrama
o afeto se esparrama
como susana-dos-olhos-negros
no talude.


São Paulo,  2011.

                               
                               
__________________________________________________morpheu
Agora afora a noite a madrugada.
afoita aflora o medo e a gota d'água
na seca, na seca brava
correr pra Morfeu antes da alvorada.
         
 São Paulo, 2011

_____________________________________sozinha

Solícita
solidária
solitária
o Sol
tudo que é Sol me rodeia
tudo que expande, se estende
tudo que  é grande
solicitude
solidariedade
solidão
em Sol maior.

São Paulo, 1989


_______________________________________________princesas

não me contaram quando criança 

sobre a possibilidade do príncipe trocar de princesa
acreditar em príncipe encantando não é nada

pior é acreditar que só exista uma princesa para cada um.


Camburi, 1989

_______________________________________clareira azul

O medo de mergulhar e não voltar
deste olhar
o ardor de mergulhar
por uma via transversa
informo que tive a ótica de um robô
na tentativa de ser moderna
uma lógica exata
sentimentos giratórios, metralhadoras
disparo paixões não decifradas
a volta de um rapaz  voraz
uma serenata tardia
suave nostalgia
Benjor magnético
eu vou voltar a ter um magnético coração
que dor , que medo de paralisar
um anjo em guarda ainda me resta
vou mergulhar no fundo
deste azul
vou clarear ainda mais 
a luz azul do teu olhar
clareira azul que me seduz.

São Paulo, 1994

____________________________desajeitada

era tão desajeitada no amor
era como se carregasse uma pilha de pratos
as pernas tremiam
dava um arrepio na barriga
depois pisava nos cacos.

São Paulo, 1979

____________________________________________ a propósito

do poema eu faço o que eu quero:

um docinho adornado
com fios de lua, arco e íris
adestro minhocas
ressuscito um amor desencantado
equilibro-me nos estais e coisas
guardo em caixetas os camafeus de Dona Belarmina
espero a filha que jamais concebi
até deixo a boate às quatro da madrugada 
só para salvar o poema e outros que tais

dele eu faço o que eu quero, Dona Berenice.

Salvador, 1997


_____________________________________virtual

sei que nosso amor está muito 
eletrônico
é só a gente ter mais uma
chance
é só a gente parar de se eclipsar
no imaginário
no aquário
no sexo incendiário
e qualquer hora dessas aí ele fica 
virtual
sei que este século já era
mas não dá pra adiar tudo pra
nova era
será que a gente vai se lembrar de tentar?
será que a gente vai estar lá?

São Paulo, 1995

______________________________________________flagrante

mas aquele homem amava tanto...
amava com o coração saindo pela boca
foi quando aconteceu o inusitado:
numa noite, bêbado e na fossa
foi autuado em flagrante
com o coração pelado.

São Paulo, 1983

__________________________________a alma e as luvas

Minha alma estranha a
tua
nada se encaixa como uma
luva

minha alma reclama 
a tua
sou a amante sob a Lua

meu peito se esvazia
essa dor não é minha

devolvo-te a Lua
a alma e 
as luvas

vazias.

   Salvador, 1999. Musicado por Fernando Gatti em 2003.

_____________________________saber o saber

saber saber o saber
é uma espiral infinita
infinita a caminhada
o que não se encontra é o que
mais desagrada
querer ter prazer aprisiona
o prazer é para o sabor
com sabor

com sabor
do coração bater e os pulmões
inflarem para que os fluidos
dos amantes 
lubrifiquem a doce delícia
do viver.

Salvador, 1998

__________________________________________samba da menina


seus olhos me comiam
você brincou de mãos dadas com a minha tristeza
você mudou o trajeto
você me extraviou, me violou
abriu o meu armário
mexeu na minha vida
você mudou as falas, não me deu a deixa!

você tumultuou minha cabeça
misturou nela coisas suas
você musa me tornou
mas você se intrometeu
mexeu no que não era seu
você falou que era uma maneira
quando tivesse que ser, seria
você fez pose, fez cena
ficou ainda mais bonita
mais lasciva,mais sabida
você me comeu com os olhos!

brincamos de mãos dadas...
aí eu escalei seu corpo como seu fosse a montanhista
e me atrevi com a sua cabeça como seu fosse uma menina.

São Paulo, 1983

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3 comentários:

  1. Viviane T. Cascão29 de outubro de 2012 14:27

    Janis!! A.D.O.R.E.I!! Vou postar no meu face os meus favoritos... Beijos

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